Quinta-feira, Janeiro 01, 2009

Efeitos do uso prolongado de drogas

[novela]

"(...)

-Acabei de passar lá na estufa, como estão lindas as flores! Foi difícil me despedir. Estão bonitas as violetas e as begônias...

-E você já foi ver os cavalos?

-Sim, vó, acordei cedo pra montar. Andei muito com o Tufão, que foi presente do vovô. Passeei pelo campinho, pela cachoeira..."

[pausa de mais uns 30 segundos]

HAHAHAHAHAHA, BEGÔNIA É UMA PALAVRA ENGRAÇADA!

Quarta-feira, Setembro 17, 2008

BTTF

São Paulo, 17/01/08

Acordei às 6h na quinta-feira, depois de ter dormido pouco na noite anterior. Pensei em dormir um pouco mais, mas estragaria o planejamento do dia: entrar no trabalho às 7h, sair às 13h, almoçar, passar pelo Palestra Itália pra comprar ingressos e seguir pra Barueri, onde o Palmeiras enfrentaria o Sertãozinho na estréia do Campeonato Paulista. Calça jeans, chaves, celular (com fones de ouvido pra funcionar como um radinho), carteira (checando duas vezes pra confirmar se o boleto e o comprovante estavam lá), camiseta branca #7 do Edmundo de 2006. Escovei os dentes e sofri um pouco pra colocar as lentes de contato, que começavam a incomodar porque estavam meio velhas.

O tiozão que vendia baguetes na frente do Stand Center, santista como todo tiozão, deu uma provocada básica ao me ver com a camiseta. Além do ciuminho pela perda do técnico, havia realmente uma dose de coerência: o Palmeiras havia sido derrotado pelo Galo por 3x0 em casa no último jogo do ano anterior e, por isso, não estava classificado para a Libertadores. Os reforços de Luxemburgo teriam muito a provar e o próprio treinador tinha (tem) uma grande mancha em relação à história do clube.

O dia no trabalho demorou uma eternidade: bambis e gambás zoando a camisa do Animal, meu chefe flamenguista tão curioso com a Arena Barueri quanto eu, Frango (tricolor interessado em futebol alternativo) decidindo se acompanharia a comitiva palestrina e eu lembrando que, além dos onze “nossos” em campo, ainda prestigiaria o Galeano – ídolo do Parque Antarctica que defendia o Sertãozinho na oportunidade. Frango decidiu não ir, o meu turno acabou, e eu atravessei a rua pra almoçar sozinho no finado Monet.

Terminado o almoço, pensei seriamente em tirar um cochilo na rampa junkie do terceiro andar. Mas o sol forte que entrava pela janelona e a ansiedade grande me fizeram desistir e matar o tempo observando pessoas esquisitas no escadão enquanto ouvia música e jogava Pokémon no celular, além da possibilidade de encontrar algum conhecido por lá.

Bem no lugar onde eu gosto de ficar – no meio da escada, lá pra cima -, achei ter visto a namorada de um conhecido meu. As lentes velhas me enganaram: a menina era bem mais bonita, mas no momento eu tava amaldiçoando porque ela estava no lugar onde eu queria sentar. Não bastasse me deixar sentado quase na calçada da Paulista, a moça em questão e suas amigas ainda estavam tirando fotos ali da entrada do prédio da Gazeta. Pior do que isso, acho que só tirar foto em shopping. Ou ter Pokémon no celular. Enfim.

Sentei e comecei a ouvir a discografia inteira do Foo Fighters e treinar meu Cyndaquil até que algum dos outros palmeirenses chegasse. Reldinha foi o primeiro, com um pacotinho do McDonald’s e uma camiseta da Rhumell do final da década de 90. Allan Puta chegou logo depois, com sua camisa falseta do Edmundo, enquanto eu falava no telefone com Maluquinhas e sua camisa 2007, que estavam aguardando de carro na Alameda Campinas. Testávamos os walkie-talkies que usaríamos na viagem em dois carros quando o Mané chegou, com sua Adidas listrada.

Na Campinas, Mané se aproveitou de um descuido meu e pulou no banco da frente. Na volta louca que o Luquinhas deu, um vendedor de flores palmeirense fez alguma menção ao jogo e o Mané comprou duas rosas: uma para a Rê, que nos encontraria nas bilheterias do Palestra, e outra pra jogar pro Galeano.

A Rê, recém-formada jornalista que trajava o modelo feminino 06/07/08 com o #10 de Valdívia, não pôde comprar meia entrada. Além disso, as arquibancadas da Arena ficam só atrás de um dos gols, motivo que nos fez escolher as numeradas descobertas. Rê estava com a grana contada pra arquibancada e pediu uns trocados emprestados pra cada um de nós, com a promessa de que pagaria em cerveja já na cidade do jogo.

Rê e Mané pegaram um dos walkie-talkies e foram buscar o carro num estacionamento próximo. Eu, Malucas, Reldinha e Puta estávamos a postos no Corsinha importunando os dois via talkabout. Quando finalmente recebemos o aval para partir, descobrimos que o carro da Rê vinha no sentido contrário e não havia como esperar por ali. O desencontro foi grande a ponto do walkie-talkie perder sinal durante bom trecho da Castelo Branco, até pararmos num posto Graal já perto de Barueri. Rê aproveitou pra sacar dinheiro enquanto nós cinco íamos ao banheiro e/ou brincávamos com a estátua de um cavalo (era a cara do Mané, juro!).

Entrando na cidade, cantávamos sertanejo pelo walkie-talkie e colocávamos os bandeirões pra fora, embora faltasse muito para o começo do jogo. Held e Mané sugeriram que tomássemos cuidado com os hooligans da torcida do Sertãozinho e foram sumariamente ignorados.

Tanto era o tempo antes do jogo que conseguimos parar os carros lado a lado exatamente em frente à entrada da Arena. Negociado o preço com os flanelinhas, encontramos um bar que parecia a filial do nosso Dom’s, mas com videokê. Um são-paulino mal-encarado no fundo do boteco parecia meter medo até começar a cantar e encorajar Mané e Malucas em seu dueto cantando “Evidências”, com a qual conseguiram nota relativamente alta – em que pese a quantidade de cerveja barata consumida pelos cantores e ouvintes.

Três menininhas entraram na casa ao lado do boteco e, de portão fechado e do alto das escadas, berraram “vai, Curíntcha!”. Típico. Estávamos em Barueri.

O Sol estava se pondo quando decidimos entrar no estádio. Nesse ponto, a cidade já estava realmente manchada de verde e não havia mais espaço para mesinhas no nosso bar na calçada estreita nem em boa parte da rua. O procedimento padrão de entrada em estádio sempre me parece muito mais chato quando não é no Palestra: na Turiassu ou na Matarazzo, é como destrancar a porta de casa. Em Barueri, ou em qualquer outro estádio, é como descer do táxi na porta do hotel. A moderna Arena em obras tem imensas (e cansativas!) escadas que levam até as cadeiras descobertas e adiavam a vista do campo onde o Palmeiras conseguiria a primeira vitória rumo ao título.

Já nas cadeiras, encontramos um tiozão com a camiseta “Eu nunca vou parar de rir porque foi hilário”, em homenagem à camisa de apoio ao time do Corinthians. Viraria moda logo depois, mas aquela foi a primeira vez que vi; tanto que fui interrogar o velhinho juntamente com o Mané. Ele disse que o filho dele é que tinha feito, e resmungou que deveria ter levado algumas pra vender. Venderia mais que pão quente, certeza.

Dentro do campo, chamava atenção a repórter loira da Rádio Globo, única mulher (e que mulher!) no gramado. Ao lado dela, Reldinha e Mané reconheceram um fotógrafo da Gazeta, que fez um bonito retrato nosso na arquibancada.

Luxemburgo, aquele traíra, teve que ouvir os protestos da torcida (Luxemburgo, preste atenção, o meu Palmeiras não aceita traição!). Provando que sua estrela como treinador é inversamente proporcional ao seu caráter, bateu o Sertãozinho por 3x1 com 2 gols do estreante Alex Mineiro (apesar das cornetadas do Mané) e um do meia-atacante William. Sob sol e sob a chuva forte que caiu por alguns minutos, chamaram a atenção, além do jogo, a vista da feia cidade de Barueri – visível porque a Arena só tem um dos lados construídos – e a vontade da Turma do Amendoim ficar sentada. Cada um que torça do seu jeito, mas eu prefiro o conforto do meu sofá quando quero ver jogo sentadinho e quietinho.

Fora do estádio, um cara corria e berrava feito um desesperado com uma camiseta verde empapada de suor nas mãos. Vestia a #10 do Valdívia, comprada, mas vinha agarrado com a #3 que ganhou do zagueirão Dininho.

Na volta pra casa, mais um desencontro: Malucas preferiu não seguir a Rê na estrada por achar que pegaríamos pedágio e o walkie-talkie saiu mais uma vez da área de alcance. Desci do carro na Paulista, junto com Allan Puta e Reldinha. Dois ou três transeuntes ainda nos perguntaram o resultado da partida, como é normal acontecer com qualquer uniformizado que ande pela avenida logo depois de qualquer jogo na cidade. Puta seguiu a pé pra casa; eu e Held ainda fomos juntos de metrô da Trianon-MASP até a Ana Rosa, onde cada um seguiu pra um lado diferente.

Sábado, Julho 26, 2008

Tomiate versus Funilaria

No mês passado, o Tomimóvel Mk.I (um FIAT Palio EX 1.0 99 verde escuro) foi abalroado por um FIAT Uno 1.5S 92 na traseira. As circunstâncias do acidente, que ocorreu na alça de acesso da Bandeirantes para a Santo Amaro, são um pouco estranhas – o mais plausível por ali aconteceria se um desavisado entrasse babando na Santo Amaro e fosse atingido por algum dos apressadinhos que já vêm pela avenida.

O importante é que, pra variar, eu não tive culpa. Sério, véi. Juro! Porra, tá no BO, o cara bateu por trás!

Enfim. Se ninguém se machucou, a pior parte do acidente é o que vem depois: uns dias perdidos correndo atrás de orçamentos de funilaria e torcendo pra que o valor do conserto ultrapassasse 75% do valor do carro, o que configura perda total e obriga o seguro a me pagar a merrequinha que o bólido vale. Do contrário, mesmo com o conserto mais perfeito possível, eu fico com um carro que já foi batido e, portanto, perde valor comercial.

Ao passo que nem a funilaria da própria FIAT chegou a esse valor e sem saco de levar o carro a lugares longínquos (aka ZN¹), o pobre Palio foi entregue à autorizada da Mapfre – minha seguradora - no Ipiranga.

(¹ A sugestão do Patrão era de levar o carro até a Kalú Import, renomada funilaria no inferno Tucuruvi especializada em veículos que valem mais do que a minha vida. O problema é que, com a violência da batida, o carro ficava instável a mais de 60km/h e seria insuportável pegar a 23 de Maio nessas condições.)

Como era de se esperar, o carro não ficou perfeito. Qualquer especialista sabe, de olhos fechados, que aquela merda foi batida. O problema é que qualquer leigo, como eu ou você, pode chegar à mesma conclusão sem muita atenção aos detalhes.

- Tem um corte na borracha do vidro, o emblema “Palio EX” tá quebrado e diz só “Palio”, a tampa do porta-malas tá desalinhada, bem como as lanternas, o conector do desembaçador tá solto, o fundo do porta-malas tá amarrotado, o batente e a fechadura estão desalinhados, esses furos não foram vedados.

- Só isso?

-Só? Me diz você. Eu não sou funileiro, você deve ver mais um milhão de defeitinhos.

- Senhor, veja bem, as lanternas só estão desalinhadas. Eu posso fazer isso pro senhor agora com uma chave Phillips.

- Hm... eu estou aqui pra pegar o carro, isso já deveria estar feito. Além disso, eu duvido que uma chave Phillips alinhe isso aqui. (A lata que fica embaixo da lanterna e cobre toda a lateral do carro também estava torta.)

- O conector do desembaçador foi puxado.

- Olha só que coisa! Talvez porque um carro praticamente entrou nesse porta-malas. E o corte na borracha?

- É só puxar um pouquinho...

- Batente e fechadura?

- É assim mesmo.

- Oi? Então quer dizer que eu posso mesmo abrir o porta-malas de um Palio zero quilômetro e enfiar meu punho fechado pelo espaço que fica entre o painel de lata e o batente?

- É.

- Você tem outro Palio aí?

- Tem, mas não é do mesmo ano que o do senhor.

- Tudo bem, não muda nada. Por dentro é a mesma coisa².

(² A FIAT, assim como todas as outras fabricantes, pratica o que é chamado de “facelift” – o Palio é rigorosamente o mesmo carro desde seu lançamento em 1997. Estica daqui, puxa dali, troca umas poucas peças e voilá: meu 99 pode ser transformado, sem emendas nem rebarbas, num 08. Infelizmente, sem cheirinho de carro novo.)

Agora estávamos eu, o supervisor e um funileiro debruçados num Palio geração dois, prata, que tinha sido ralado na lateral. Logo, sem nenhuma alteração na traseira.

- Olha que mágico: o batente aqui cabe justinho, os furos estão vedados, o fundo é liso, a borracha não tem emendas...

- Senhor, tô anotando (a folha A4 que ele tinha na prancheta estava preenchida por defeitos escritos em letras miúdas). Fulano, faz o seguinte, coloca o carro do rapaz do lado desse aqui e tenta se aproximar ao máximo do carro original.

- Hm... com licença, mas não era essa a idéia desde o começo?

- Senhor, tem coisa que é normal. Por exemplo, a tampa do porta-malas. Nós deixamos ela mais justa pra eliminar ruídos.

- Eu não quero que vocês melhorem o meu carro. Agradeço mesmo, de coração, mas fico feliz se ele estiver o mais parecido possível com o original de fábrica.

O funileiro, desgraçadamente numa posição hierárquica inferior ao supervisor, pela primeira vez pediu a palavra e teve a bondade de fazer um esforço pra resolver a situação:

- Senhor, faz o seguinte: deixa o carro aqui, eu não sei precisar por quanto tempo, e a gente liga agora pro seu corretor ou pra própria Mapfre pedindo um fiscal pra acompanhar o serviço. Ou, no mínimo, pra estar aqui quando o senhor vier retirar o carro.

Pra resistir à tentação de esfregar a cara do supervisor nas cagadas do carro, resolvi topar a proposta do funileiro. Devolvi a chave do carro, concordando com a cabeça, e saí sem falar mais nada.

Tomimóvel continua internado. Não há risco de morte, mas a ameaça de seqüelas irreparáveis começa a se mostrar presente.

Segunda-feira, Junho 30, 2008

Alianza United

Retruquem, então, aqueles que se consideram os últimos bastiões da caminhoneirice deslavada e da macheza que só chora ouvindo Lindomar Castilho, mas eu vou dizer: o futsal casperiano é regido pela moda – como não poderia deixar de ser numa faculdade de maioria bambi tricolor. Poucos são os craques que arriscam combinações tipicamente peladeiras como meião do Boca / calção do Hamburgo / camisa do Olympique. À parte os colecionadores de camisas, aqueles que não se acanham em disputar pelejas com mantos sagrados do OPEC, do Matsubara, do Madureira ou do Bandeirante de Birigui (HEY, MANÉ, ESSA FOI SÓ PRA VOCÊ!), a grande maioria tenta uma combinação agradável no kit ou, ao menos, traja camisetas de algum valor tradicional.

Sabadão, indo de metrô pra Sabesp (porque um babaca detonou o porta-malas do Tomimóvel), com calção e meião azuis já por baixo do jeans, eu ostentava a belíssima camiseta listrada em marinho e branco do centenário Club Alianza Lima – ao lado do Club Universitario de Deportes, protagonista da maior rivalidade peruana e 38ª do mundo, logo à frente do Gre-Nal. Um pouco atrasado pro prélio, embarquei no sentido Tucuruvi na estação Paraíso já tentando um lugar próximo à porta oposta, ousando um desembarque na estação Vergueiro.

Uma voz atrás de mim falou alguma coisa en español. Não entendi porra nenhuma e demorei pra me ligar que era comigo. Era uma mulher de pouco menos de 30 anos, bonita nas feições meio indígenas, que sorria num primeiro momento, mas viu a minha cara de ponto de interrogação e precisou perguntar em português (com sotaque) se eu era do Peru.(Um minuto de espaço para os trocadilhos.)

Respondi, obviamente, que não. Ela precisou perguntar que carajos eu tava fazendo com uma camisa do Alianza, eu respondi que meu pai comprou quando estava viajando a trabalho por lá. Ela se identificou como torcedora do clube e disse que era bom saber que o time era conhecido fora do país e que matou um pouco a saudade de casa.

Antes de a porta abrir na estação Vergueiro, perguntei pra que time ela torcia no Brasil. A resposta foi rápida: Palmeiras.

Preciso usar mais a minha camiseta do Alianza.

Sábado, Maio 03, 2008

Baliza

- Vê aí se tá longe da guia.

- Não, tá bom. Um pouco longe. Mas tá bom, desencana.

- Peraí, deixa eu encostar um pouco mais.

- Desencana, não preci...

- Pronto. Olha agora.

- Tá bom. A traseira tá meio longe, mas...

- Deixa eu acertar, peraí.

- Desencan...

- Melhor assim?

- Meu, quando você vai me ouvir quando eu falar “desencana”? [abre a porta do carro]

- PÉRA, VOLTA. Olha pra minha cara e repete isso aí de desencanar mais uma vez. Porra, justo você? Tá de brincadeira? Eu preciso responder?”

Sexta-feira, Maio 02, 2008

Sinapses

Parar pra pensar nunca me fez chegar a lugar nenhum. Mas brisar de vez em quando sobre as coisinhas da vida pode levar a algumas conclusões interessantes:

- A pior parte de idealizar não é se decepcionar depois; não, muito pelo contrário. Ter expectativas superadas é o pior dos infernos.

- Tempo e travesseiro não lavam a alma. Coisas de anos geralmente valem mais do que coisas de semanas e coisas de semanas também podem valer muito mais do que coisas de anos.

- O seu direito de ficar incomodado com qualquer coisa é inversamente proporcional ao quanto você realmente vai ficar puto. O coração sente muito mais pelo que os olhos não vêem. A impossibilidade de reclamar, porém, parece fazer bem.

- “Espaço x Tempo” é uma relação bastante real. Eu não reconheço, nas lembranças, o que aconteceu nos lugares por onde eu passo todo santo dia. Não, não pode ter sido ali. De novo?

- “Ter com quem nos mata lealdade”. Não podia mesmo ser mais fácil do que fazer pipoca no microondas, burro era eu esperando por isso.

- Alguém ainda vai te fazer entender o sentido de “ter certeza” de alguma coisa. No meu caso, ironicamente, essa é uma das poucas pessoas que consegue ser tão indecisa quanto eu.

- Se paciência não for uma grande virtude, eu vou direto pro inferno. Não tenho mostrado capacidade pra muita coisa além de esperar. “Vontade” e “ímpeto” são coisas bem diferentes, talvez até contraditórias.

- "Orgulho" merece o nome mais pomposo de "instinto de auto-preservação".

Sexta-feira, Março 28, 2008

Faxina

Esse certamente é o período mais infrutífero desse blog: além do jejum de postagens, algumas delas foram excluídas do cosmos para todo o sempre. Outras, ainda, foram rebaixadas à condição de "rascunho".

Aos meus dois leitores (oi, mãe!)*, aguentem aí que um dia isso volta à ativa.

*Piadinha infame furtada descaradamente do Cavaleiro com Solitária. É, tá osso, nem a única piadiha infame do post é minha.

Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008

A família que escolhemos

Dia 1, conversa rápida com Cicrano, berrada na orelha por causa da música alta:

"Velho, não faz isso, você sabe que o Fulano tá interessado."

"Dane-se, já me fodi bastante no ano passado por tentar ser gente boa."

"Ok, mas, se ele chegar aqui e der merda, saiba desde já ao lado de quem eu vou estar."

"Anotado, Tomiate."

Dia 2, conversa rápida com Fulano, via msn:

"Tomiate, sua ex-mina é gostosa."

"A Beltrana?"

"É. Trabalha aqui na Editora Tal, no meu andar, designer. Gostosa."

Amigo não é o cara que te oferece o ombro; não, isso qualquer um faz com certa desenvoltura.
Amigo de verdade é aquele que chuta a sua boca quando você tá meio inconsciente no chão.

Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008

Basta o jeitinho dela andar...

Oito horas da manhã do penúltimo dia. Paro pra comprar meu café da manhã, já atrasado, mas ainda confiante de que o cinema à tarde não seria prejudicado pelos minutos de sono roubados da função “soneca” do despertador/celular. O chamado “tiozão da baguete” (sem trocadilhos infames, por favor) já havia separado meu sanduba de chester e buscava uma latinha de coca no isopor que fica no chão, sob a bancadinha de lanches.

Ouço, então, uma voz feminina conhecida, me chamando pelo único ouvido destampado (o outro ouvia o pianinho de “You can leave your hat on”). Papo de 30 segundos padrão: “pra onde você tá indo, ah, trabalhar, continua aí, ah, tá saindo, vou pra facul, beijo.” Ela sai andando, tiozão da baguete me entrega a sacolinha com uma latinha de refrigerante e um sanduíche embalado, e desfere o seguinte comentário enquanto procura, instintivamente, pelo canudinho num canto da bancada: “Essa aí rebola bem, hein?”

“Pô, é ex de um amigo meu, não me comprometa!”

Quinta-feira, Janeiro 10, 2008

Sentando no quibe com o prefeito-esfiha

Já de antemão: a mudança de nome em um partido me parece uma situação um tanto oportuna. Num país sério, com gente que pensa sério (não me venham com pedras nacionalistas na mão, eu juro que não falo só do Brasil), trocar a legenda de um plano de governo deve ser mais difícil do que descongelar lasanhas. Trocar o nome do seu cachorro quando o bichinho já tá grande é uma puta sacanagem, mas renomear uma linha de pensamento me parece mais “renúncia” do que “renovação”. A não ser que se admita que o único plano seja o de poder, visto que o plano de governo anda em falta por estas bandas.

Depois disso, vem a escolha do nome. Ok, sejamos condescendentes: o PT não representa os trabalhadores há tempos e a social-democracia tucana é o democrata importado dos isteites. Malditos sejam, então, os partidos genéricos, que tentam englobar os votos de gregos e troianos e acabam representando só os próprios líderes: É a mentalidade-de-reforma-política-porque-enfim, mas o mérito da questão é (ou eu queria que fosse) menor do que isso: são poucos os políticos em exercício hoje em dia que podem bater no peito e bradar que, apesar de não eleitos, são Democratas de carteirinha.

Tudo bem, eu posso ser mais razoável e entender que nosso ilustríssimo prefeito só o é por causa das circunstâncias originadas não por ele, mas pelo prefeito eleito. O problema é que ninguém mais parece lembrar que nenhum cargo público tem autoridade por si só; se o cara é eleito (mesmo que como vice), deve ao povo e não o contrário. Se a voz de um popular é falta de respeito (“vagabundo!”), eu não sei bem o que é que eu faço na frente daquelas urnas sempre que me chamam.

Sobreviveu sem (muitos) chiliques a uma lauda anti-Kassab? Então vâmo lá.

A capital paulista é uma colcha de retalhos, cheia dos “mas” e dos “quase”. Medidas paliativas não são todo o mal do mundo – se fossem, fariam vítimas na ligação de São Paulo com o ABC nas Juntas Provisórias que já duram décadas. O Minhocão (oficialmente ‘Elevado Costa e Silva’, o que guarda um duplo sentido bem pior do que o do apelido) opera milagres no trânsito safenado da cidade, mas sufoca (estética e termicamente) a Avenida São João, vaporiza carbono nos andares mais baixos dos prédios vizinhos e tem a curva mais estúpida já construída numa via expressa elevada no centro de uma metrópole. Mas fói malúfe quê féz, então, tá tudo certo.

Arquitetonicamente, uma bomba. Tentaram cobri-lo com obras de artistas plásticos e arquitetos pra reduzir o impacto, mas 2700 metros decorados num corredor de 3 quilômetros e meio de concreto que passa a 5 metros de apartamentos onde moram pessoas é tão eficaz quanto cagar listradinho. O que fica bem claro é que o estilo de quem fez o negócio não é o de integrar as coisas, muito pelo contrário. O que puder se destacar pode e será usado na próxima campanha do doutor Paulo. Estupra mas não mata, rouba mas faz, ele vai se reelegendo com o único mérito de saber montar redes de influência e de poder como ninguém. O melhor dos Jedi era o Anakin, pena que ele trabalhava pro lado negro da Força.

É mais ou menos o efeito da Lei Cidade Limpa. Gilbertinho Kassab fecharia seu mandato de imprefeito completamente em branco se não fizesse algo que pudesse ficar exposto, na cara dos paulistanos. Fosse só isso, tudo bem – se ele resolvesse todas as mazelas da cidade, que jogasse mesmo com toda a propaganda do mundo alardeando sua competência.

Vou pelo lado da pobreza dos prédios descobertos pelos outdoors: residências nunca foram o ponto forte da Arquitetura brasileira, embora prédios e demais locais públicos façam inveja mundo afora. Dentro disso, não creio que seja exagero dizer que, talvez porque as nossas escolas pioneiras de arquitetura tenham sido paridas de faculdades de engenharia (falo especificamente das FAU, Mack e USP), poucas são as edificações não-históricas de destaque em São Paulo – limitando à categoria de “prédios que servem de verdade ao povo”. A estação de metrô da Sé e a praça ao lado da Catedral são os únicos projetos modernos(os) realmente utilizados pela população.

Os prédios históricos, no entanto, merecem mesmo mais destaque do que tinham: as casinhas do jóquei, por exemplo, são edificações tombadas que ficavam cobertas por outdoors. O problema é que, como muitos prédios antiguinhos, dependiam da grana das propagandas para manter o estado de conservação (foco, rapazes - se o dinheiro era ou não usado pra isso, caberia à prefeitura fiscalizar e não arrancar os cartazes).

E é louvável a preocupação do poder público para com marcos da cidade. A calçada da Avenida Paulista realmente precisava de reforma, já que o mosaico português fazia de qualquer mulher com salto uma vítima em potencial, sem falar no baixo coeficiente de aderência quando molhado (sem eufemismo: aquela porra escorrega pra caralho). Porém, em vez de reproduzir o painel modernista bicolor com o novo material, preferiram usar os dois tons chapados no seguinte esquema: 1 – meio do quarteirão – concreto cinza-escuro com orientação para cegos, guias rebaixadas e demais detalhes em cinza-claro; 2 – esquinas – concreto cinza-claro, orientação para cegos, guias rebaixadas e demais detalhes em cinza-escuro. Vou fazer juízo de valor porque esse blog é meu e “quem manda nessa porra sou eu”: uma bosta que marca a amputação do desenho original, que ainda persiste no canteiro central.

Cidade charmosa sem anúncios é Chernobyl. E a atitude que realmente se espera de um prefeito paulistano não pode ser algo muito diferente do que mostrou Rudolph Giuliani em Nova Iorque, botando policial bigodudo comedor de rosquinha pra trabalhar de verdade. Pela razão da prioridade (entre outras questões), nunca discutiu se a Times Square é poluição visual.