São Paulo, 17/01/08
Acordei às 6h na quinta-feira, depois de ter dormido pouco na noite anterior. Pensei em dormir um pouco mais, mas estragaria o planejamento do dia: entrar no trabalho às 7h, sair às 13h, almoçar, passar pelo Palestra Itália pra comprar ingressos e seguir pra Barueri, onde o Palmeiras enfrentaria o Sertãozinho na estréia do Campeonato Paulista. Calça jeans, chaves, celular (com fones de ouvido pra funcionar como um radinho), carteira (checando duas vezes pra confirmar se o boleto e o comprovante estavam lá), camiseta branca #7 do Edmundo de 2006. Escovei os dentes e sofri um pouco pra colocar as lentes de contato, que começavam a incomodar porque estavam meio velhas.
O tiozão que vendia baguetes na frente do Stand Center, santista como todo tiozão, deu uma provocada básica ao me ver com a camiseta. Além do ciuminho pela perda do técnico, havia realmente uma dose de coerência: o Palmeiras havia sido derrotado pelo Galo por 3x0 em casa no último jogo do ano anterior e, por isso, não estava classificado para a Libertadores. Os reforços de Luxemburgo teriam muito a provar e o próprio treinador tinha (tem) uma grande mancha em relação à história do clube.
O dia no trabalho demorou uma eternidade: bambis e gambás zoando a camisa do Animal, meu chefe flamenguista tão curioso com a Arena Barueri quanto eu, Frango (tricolor interessado em futebol alternativo) decidindo se acompanharia a comitiva palestrina e eu lembrando que, além dos onze “nossos” em campo, ainda prestigiaria o Galeano – ídolo do Parque Antarctica que defendia o Sertãozinho na oportunidade. Frango decidiu não ir, o meu turno acabou, e eu atravessei a rua pra almoçar sozinho no finado Monet.
Terminado o almoço, pensei seriamente em tirar um cochilo na rampa junkie do terceiro andar. Mas o sol forte que entrava pela janelona e a ansiedade grande me fizeram desistir e matar o tempo observando pessoas esquisitas no escadão enquanto ouvia música e jogava Pokémon no celular, além da possibilidade de encontrar algum conhecido por lá.
Bem no lugar onde eu gosto de ficar – no meio da escada, lá pra cima -, achei ter visto a namorada de um conhecido meu. As lentes velhas me enganaram: a menina era bem mais bonita, mas no momento eu tava amaldiçoando porque ela estava no lugar onde eu queria sentar. Não bastasse me deixar sentado quase na calçada da Paulista, a moça em questão e suas amigas ainda estavam tirando fotos ali da entrada do prédio da Gazeta. Pior do que isso, acho que só tirar foto em shopping. Ou ter Pokémon no celular. Enfim.
Sentei e comecei a ouvir a discografia inteira do Foo Fighters e treinar meu Cyndaquil até que algum dos outros palmeirenses chegasse. Reldinha foi o primeiro, com um pacotinho do McDonald’s e uma camiseta da Rhumell do final da década de 90. Allan Puta chegou logo depois, com sua camisa falseta do Edmundo, enquanto eu falava no telefone com Maluquinhas e sua camisa 2007, que estavam aguardando de carro na Alameda Campinas. Testávamos os walkie-talkies que usaríamos na viagem em dois carros quando o Mané chegou, com sua Adidas listrada.
Na Campinas, Mané se aproveitou de um descuido meu e pulou no banco da frente. Na volta louca que o Luquinhas deu, um vendedor de flores palmeirense fez alguma menção ao jogo e o Mané comprou duas rosas: uma para a Rê, que nos encontraria nas bilheterias do Palestra, e outra pra jogar pro Galeano.
A Rê, recém-formada jornalista que trajava o modelo feminino 06/07/08 com o #10 de Valdívia, não pôde comprar meia entrada. Além disso, as arquibancadas da Arena ficam só atrás de um dos gols, motivo que nos fez escolher as numeradas descobertas. Rê estava com a grana contada pra arquibancada e pediu uns trocados emprestados pra cada um de nós, com a promessa de que pagaria em cerveja já na cidade do jogo.
Rê e Mané pegaram um dos walkie-talkies e foram buscar o carro num estacionamento próximo. Eu, Malucas, Reldinha e Puta estávamos a postos no Corsinha importunando os dois via talkabout. Quando finalmente recebemos o aval para partir, descobrimos que o carro da Rê vinha no sentido contrário e não havia como esperar por ali. O desencontro foi grande a ponto do walkie-talkie perder sinal durante bom trecho da Castelo Branco, até pararmos num posto Graal já perto de Barueri. Rê aproveitou pra sacar dinheiro enquanto nós cinco íamos ao banheiro e/ou brincávamos com a estátua de um cavalo (era a cara do Mané, juro!).
Entrando na cidade, cantávamos sertanejo pelo walkie-talkie e colocávamos os bandeirões pra fora, embora faltasse muito para o começo do jogo. Held e Mané sugeriram que tomássemos cuidado com os hooligans da torcida do Sertãozinho e foram sumariamente ignorados.
Tanto era o tempo antes do jogo que conseguimos parar os carros lado a lado exatamente em frente à entrada da Arena. Negociado o preço com os flanelinhas, encontramos um bar que parecia a filial do nosso Dom’s, mas com videokê. Um são-paulino mal-encarado no fundo do boteco parecia meter medo até começar a cantar e encorajar Mané e Malucas em seu dueto cantando “Evidências”, com a qual conseguiram nota relativamente alta – em que pese a quantidade de cerveja barata consumida pelos cantores e ouvintes.
Três menininhas entraram na casa ao lado do boteco e, de portão fechado e do alto das escadas, berraram “vai, Curíntcha!”. Típico. Estávamos em Barueri.
O Sol estava se pondo quando decidimos entrar no estádio. Nesse ponto, a cidade já estava realmente manchada de verde e não havia mais espaço para mesinhas no nosso bar na calçada estreita nem em boa parte da rua. O procedimento padrão de entrada em estádio sempre me parece muito mais chato quando não é no Palestra: na Turiassu ou na Matarazzo, é como destrancar a porta de casa. Em Barueri, ou em qualquer outro estádio, é como descer do táxi na porta do hotel. A moderna Arena em obras tem imensas (e cansativas!) escadas que levam até as cadeiras descobertas e adiavam a vista do campo onde o Palmeiras conseguiria a primeira vitória rumo ao título.
Já nas cadeiras, encontramos um tiozão com a camiseta “Eu nunca vou parar de rir porque foi hilário”, em homenagem à camisa de apoio ao time do Corinthians. Viraria moda logo depois, mas aquela foi a primeira vez que vi; tanto que fui interrogar o velhinho juntamente com o Mané. Ele disse que o filho dele é que tinha feito, e resmungou que deveria ter levado algumas pra vender. Venderia mais que pão quente, certeza.
Dentro do campo, chamava atenção a repórter loira da Rádio Globo, única mulher (e que mulher!) no gramado. Ao lado dela, Reldinha e Mané reconheceram um fotógrafo da Gazeta, que fez um bonito retrato nosso na arquibancada.
Luxemburgo, aquele traíra, teve que ouvir os protestos da torcida (Luxemburgo, preste atenção, o meu Palmeiras não aceita traição!). Provando que sua estrela como treinador é inversamente proporcional ao seu caráter, bateu o Sertãozinho por 3x1 com 2 gols do estreante Alex Mineiro (apesar das cornetadas do Mané) e um do meia-atacante William. Sob sol e sob a chuva forte que caiu por alguns minutos, chamaram a atenção, além do jogo, a vista da feia cidade de Barueri – visível porque a Arena só tem um dos lados construídos – e a vontade da Turma do Amendoim ficar sentada. Cada um que torça do seu jeito, mas eu prefiro o conforto do meu sofá quando quero ver jogo sentadinho e quietinho.
Fora do estádio, um cara corria e berrava feito um desesperado com uma camiseta verde empapada de suor nas mãos. Vestia a #10 do Valdívia, comprada, mas vinha agarrado com a #3 que ganhou do zagueirão Dininho.
Na volta pra casa, mais um desencontro: Malucas preferiu não seguir a Rê na estrada por achar que pegaríamos pedágio e o walkie-talkie saiu mais uma vez da área de alcance. Desci do carro na Paulista, junto com Allan Puta e Reldinha. Dois ou três transeuntes ainda nos perguntaram o resultado da partida, como é normal acontecer com qualquer uniformizado que ande pela avenida logo depois de qualquer jogo na cidade. Puta seguiu a pé pra casa; eu e Held ainda fomos juntos de metrô da Trianon-MASP até a Ana Rosa, onde cada um seguiu pra um lado diferente.